Vendo as notícias sobre as manifestações do final de semana, descubro que, para a grande imprensa brasileira (Folha, Estadão, Globo etc.):
1.Vidraça de banco é mais importante que olho de adolescente;
2.Jovens rebeldes e mascarados de 12 a 18 anos são mais ameaçadores que velhos golpistas e oligarcas que nunca saíram do poder;
3.Dano ao patrimônio, ai ai ai, é mais grave que violação da soberania popular;
4.Violência policial deliberada contra pessoas indefesas ao fim de ato pacífico pode ser descrita como "confusão" (ex: "protesto termina em 'confusão'");
5.Repercussão da agitação social no mercado de valores merece mais destaque que os motivos que levam os cidadãos às ruas;
6. A culpa dos protestos "é da Dilma" (cf. secretário de Redação de um desses jornais);
7. O fracassado projeto neoliberal (terceirização, financeirização, privatização etc.) vai salvar o país, em breve, aguardem, mas é a esquerda que não consegue superar o passado;
8. O "combate" ao vandalismo e à corrupção admite a violação de direitos fundamentais, inclusive a detenção arbitrária, mas "fascistas" são os outros.
Conclusões parciais:
a) Se você quer se informar sobre o Brasil é melhor começar a ler a imprensa internacional ou a local não-profissional. Chegamos ao ponto em que o relato dos que participam dos eventos é mais objetivo do que o de quem os noticia;
b) Nossas Faculdades de Jornalismo, à semelhança das de Direito, fracassaram miseravelmente no desafio de produzir profissionais técnicos e éticos, isto é, minimamente comprometidos com a democracia e os valores republicanos (raras exceções à parte);
c) Essa Imprensa não é parte da solução; ela é parte do problema. Ela atenta contra a democracia.
Enquanto não temos uma resposta institucional à altura (e tudo indica que não teremos tão cedo), é nosso dever: se assinante, cancelar; se eventualmente leitor, nunca mais comprar; se audiência, desligar; se consumir, não reproduzir. Mas, se pudermos ocupar esse espaço para contradizê-lo, desmascará-lo e resistir, não hesitar um instante sequer.
Por Maurício Stegemann Dieter
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