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sábado, 21 de janeiro de 2017

Um texto de Suzane Jardim

Eu raramente toco no assunto.
Raramente mesmo.
Porque tenho mulheres feministas de todas as vertentes nesse perfil, respeito muito a militância de todas, cultivo amizades com muitas delas e tenho mais o que fazer do que lidar com tretinha besta de internet.
Porém tem uns lances que eu vejo e cansam em um nível que eu não suporto.

E vou falar sobre dando o exemplo do Terminal Jabaquara, onde passo todo dia pra ir pro trabalho, faculdade etc.
Nas ruas ao redor do Terminal Jabaquara mora uma travesti negra. A vi por lá pela primeira vez no final do ano passado.
Ela tinha tranças lindíssimas, um forte sotaque do nordeste e parou pra elogiar o meu cabelo e minhas tatuagens. Desde então não pude deixar de observá-la todos os dias quando parava na área aberta do terminal pra fumar meu cigarro antes de pegar o trólebus ou o metrô.
Uma vez estava lá e ela passou com os dois olhos roxos e a cara toda inchada. Andava com a cabeça baixa enquanto comprava um saco de pão de queijo na barraquinha com moedas contadas e não me deu oi dessa vez.
Outro dia, quando parei pra fumar, ela estava sentada no chão conversando com outra moradora de rua - corpo encardido, lágrimas nos olhos e um lenço cobrindo o cabelo: durante a noite foi espancada e alguém colocou fogo nas tranças dela.
Felizmente ela teve ajuda e sofreu poucos danos pelo fogo, mas hoje não tira mais o lenço da cabeça porque tem vergonha do cabelo crespo e queimado sem as tranças.
Além disso, já vi várias vezes outros moradores de rua passando a mão nela de modo abusivo, fazendo brincadeiras escrotas e dizendo coisas ao pé do ouvido da moça que ria sem graça e saia de perto com uma cara de "outra vez, não...".

Eu não vou usar esse post pra dizer o que fiz ou não por ela porque esse texto não é sobre mim.
Só fico todo dia imaginando como devem ser infernais as noites que ela passa - todas elas, sem exceção.

O ponto é que toda vez que eu vejo textão gigante desmerecendo a atenção que se dá pra causa das trans e travestis, eu penso nessa mina.
Penso em como parece que estão usando a Caitlyn Jenner como base de toda análise e esquecem que é dessa mina que eu tô falando.
Penso no quão ridículo e vazio é chamar de fetichização da feminilidade essa porra toda que essa mina passa todo dia.
Na cabeça de muita gente, ela deve pensar:
- Poxa, estão me espancando, me queimando, me estuprando e me violentando todo dia.... mas é tão linda as blusinha e as sapatilha, vale a pena.

Eu ter empatia e me preocupar com essa mina, pra muita gente que tá muito preocupada em ~~denunciar~~ as trans malvadonas, é colonização. É me preocupar com macho. É deixar a luta das "mulheres nascidas mulheres em segundo plano".

Na moral.
Eu sofri na mão de macho. Eu sei o que é estupro. Eu sei o que é abuso. A maioria de nós sabe.
E eu sei que aquela travesti do terminal tá usufruindo porra nenhuma do privilégio de "ter nascido macho".

Então, assim, parem de usar internet, realidade norte-americana e televisão pra analisar a questão das travestis no Brasil.
O textinho do blog da trans americana milionária falando sei lá o que não é base pra porra nenhuma.
E assim, o unfollow é livre.

Sei nem mais o que dizer.
Cresçam.
plmmd

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